Tema Central: Comunicação, Religião e Cultura Visual

Relegada ao segundo plano pelo protagonismo do texto no Ocidente, a imagem desempenhou, por muito tempo, um papel periférico e subestimado na filosofia e no estudo da linguagem. Ela era compreendida como meio universal de comunicação que fornecia uma representação direta, exata e não mediada da realidade, excluindo qualquer demanda por uma leitura social e cultural em sua hermenêutica. Contudo, após a denominada “virada pictórica” ou “virada visual” na década de 1990 (MITCHELL, 2009), que por sua vez é devedora do movimento da “virada cultural” (HALL, 1997; JAY, 2004), os estudos visuais ou estudos da cultura visual emergem como um campo do conhecimento que procura, ente outras possibilidades, investigar a sociedade através da mediação técnica e cultural das imagens.

Para além da analogia direta entre a imagem e a realidade, esse novo campo de estudos entende que a visão é uma construção cultural, cuja relação com os recortes de geografia, tempo e ideologia é imperativo em sua tentativa de perscrutar a complexa prática do olhar. Dessa forma, a cultura visual não é somente uma construção social do visual, mas também uma construção visual do social (DIKOVITSKAYA, 2006).

Nesse contexto, os estudos visuais ampliaram seu escopo originalmente vinculado à história da arte e à estética, e incluíram em seu repertório a materialidade do cotidiano e os produtos midiáticos. Os media ganharam papel de destaque por serem o aparato pelo qual a imagem é produzida e circulada; e também por demandarem, ao mesmo tempo, a construção e a desconstrução dos valores e das ideologias que regem as sociedades. Se no século 19 o espírito da época foi representado pela imprensa e pela novela, atualmente, ele se identifica por meio da imagem e se imagina pela visualização da existência (MIRZOEFF, 2003).

Os efeitos da “virada visual” chegaram também aos estudos da religião, cuja gama de pesquisas abrange desde o estudo da imagem na história das tradições religiosas até o uso da tecnologia audiovisual e dos recursos midiáticos na elaboração do discurso religioso. Não à toa, é crescente também o campo conhecido como “cultura visual religiosa” (MORGAN, 1998, 1999, 2005) que, entre várias abordagens, se propõe a analisar o uso de imagens religiosas, a estética dos espaços sagrados, o papel sacro da materialidade, e mesmo a resistência e/ou preferência da utilização das mídias como ferramenta proselitista.

Diante desse cenário, a 11ª edição do Eclesiocom apresenta o tema “Comunicação, Religião e Cultura Visual”, buscando reunir pesquisadores cujos trabalhos enfoquem a relação entre mídia, religião e estudos visuais, em especial no contexto brasileiro contemporâneo. O objetivo é estimular um diálogo a partir dos campos da Comunicação, da Teologia, das Ciências da Religião e das Ciências Sociais, seja por conta do incentivo à abordagem transdisciplinar ou por meio de intercâmbio conceitual e metodológico.


Referências bibliográficas

DIKOVITSKAYA, M. Visual Culture: the study of the visual after the cultural turn. England: MIT Press, 2006.
HALL, S. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 22, n. 2, p. 15-46, jul./dez. 1997.
JAY, M. Relativismo cultural e a virada visual. Aletria, Belo Horizonte, v. 10/11, 2003/2004.
MITCHELL, W. J. T. Iconology: image, text, ideology. Chicago: University of Chicago Press, 1986.
______________. Teoría de la imagen. Madrid, España: Ediciones Akal, 2009.
MIRZOEFF, N. Una introducción a la cultura visual. Barcelona: Paidós Arte Y Educación, 2003.
MORGAN, D. Visual piety: a theory and history of popular religious images. Berkeley: University of California Press, 1998.
______________. Protestants and pictures: religion, visual culture, and the age of American mass production. Oxford: Oxford University Press, 1999.
______________. The sacred gaze: religious visual culture in theory and pratice. Berkeley: University of California Press, 2005.